Os motivos que te fazem comer (e o que isso diz sobre o seu comportamento alimentar)

Atualizado: 23 de out.
por Verônica Gouvêa

Parece a coisa mais simples do mundo, você sentir fome e comer. Mas a verdade é que existem inúmeros mecanismos por trás do comer. Quando você começa a prestar atenção, percebe que ao longo de um único dia come por motivos que muitas vezes nem entende, e quase nunca é apenas porque o corpo pediu. Entender esses motivos é extremamente importante para você sair de ciclos de dietas que falharam, de processos de restrições e de estratégias que não resolvem de fato sua questão com a alimentação. E é sobre isso que eu quero conversar com você aqui nesse texto.
Quando falamos de comer, não falamos só de emoção
Antes de aprofundar, jå preciso começar dizendo que, existe uma ideia muito difundida de que comer demais é sempre uma questão emocional, mas é importante você entender que isso é só uma parte da "fisiologia do comer" e reduzir o comportamento alimentar a "comer por ansiedade" acaba escondendo muita coisa.
De maneira muito simples, preciso te contar que o que te leva a comer passa por duas vias diferentes, que convivem o tempo inteiro dentro de você, e boa parte da confusão com a comida nasce justamente de não saber distinguir uma da outra. Quando você aprende a enxergar essas duas vias, muita coisa que parecia falha sua começa, enfim, a fazer sentido.
A via que te mantém viva: a fome homeostática
A primeira é uma via de pura regulação fisiológica, que existe para uma função nobre, que é te manter viva. É a fome de verdade, aquela que nasce quando o corpo precisa de energia, e ela é comandada por um sistema sofisticado, com uma central no cérebro, o hipotálamo, e hormônios que fazem o serviço de aviso, como a grelina, que acende a fome, e a leptina, que avisa quando já é suficiente.
Essa fome tem um jeito próprio de aparecer, ela sobe aos poucos, costuma vir acompanhada de sinais físicos, como a energia caindo, e praticamente qualquer comida resolve, porque o que o corpo quer, de fato, é combustível. É a fome legítima, a que merece ser ouvida e atendida, nunca combatida, e eu faço questão de dizer isso porque muita gente aprendeu a tratar a própria fome como inimiga. O detalhe, e eu volto nele mais adiante porque é um dos pontos mais importantes deste texto, é que essa via pode se desregular, e quando isso acontece a fome passa a aparecer muito além do que o corpo realmente precisa.

A via do prazer e da emoção: a fome hedônica
A segunda via não tem nada a ver com energia ou necessidade fisiológica, ela responde ao prazer, à recompensa e à emoção, e a ciência dá a ela o nome de via hedônica. Aqui quem comanda não é o hipotálamo, é o circuito de recompensa do cérebro, o mesmo que se acende diante de qualquer coisa que nos dá prazer, e por isso ela funciona de um jeito completamente diferente da fome do corpo.
Essa vontade costuma ter motivações emocionais e pede um alimento específico, quase sempre doce ou gorduroso. O que ela busca não é saciedade, mas sim alívio ou satisfação. É por essa via que entra o comer por ansiedade, mas também o comer por tédio, por solidão, por cansaço, e é aqui que mora quase tudo aquilo que as pessoas chamam de "comer sem fome". Perceber que existe uma fome que não vem do estômago, e sim da emoção e do contexto, já é meio caminho andado para parar de se culpar por ela.
Os muitos motivos que te fazem comer
As duas vias são as bases, porém dentro dessas vias cabe uma porção de motivos, e vou listar aqui de maneira simples, para você conhecer os principais, porque é bem provável que você se reconheça em mais de um deles:
Tem a fome real, do corpo, como expliquei.
Tem a emoção em todas as suas formas, e aqui vale insistir que não é só ansiedade, é também o tédio de uma tarde arrastada e a solidão de uma noite sozinha, como falei acima.
Tem o hábito, que é um dos que eu mais vejo no consultório, aquelas pacientes que foram criadas beliscando a tarde inteira, em casas onde comida era sempre oferecida, e para quem comer nunca precisou de fome, virou simplesmente o jeito como as coisas sempre foram.
Tem a vontade de comer por estímulo, que nada mais é do que sentir algum cheiro cheiro, ver um alimento prazeroso ou simplesmente estar em volta de outras pessoas comendo. Tudo isso já é suficiente para disparar a vontade (e não é errado, mas precisa ser identificado).
E tem o comer social, que talvez seja o mais bonito e o mais incompreendido de todos, porque comer junto é afeto, é vínculo, é memória. Até a medicina do estilo de vida, que olha a saúde de forma ampla, coloca a qualidade das nossas relações como um dos pilares de uma vida saudável, e o comer está profundamente enredado nisso, na mesa de domingo, no café com quem você gosta, na comemoração.
Ou seja, boa parte dos motivos que te fazem comer não tem absolutamente nada de errado, eles são parte de ser humano e de estar vivo entre outras pessoas.
Nenhum motivo é errado, o que importa é o impacto

Preciso dizer isso com todas as letras: nenhum dos motivos que listei ali em cima é, por si só, errado. O comer emocional está dentro dessa lista, e é tão humano quanto comer por hábito, por estímulo ou por estar à mesa com quem você gosta. Não é uma questão de certo e errado, e eu insisto nisso não para defender o prazer de comer, mas porque é a verdade, e porque colocar culpa em cima de cada garfada nunca ajudou ninguém a comer melhor.
O que de fato precisa ser olhado não é o motivo, é o impacto. Ou seja, com que frequência isso acontece, em que volume, se existe equilíbrio e controle, ou se existe impulsividade. Comer por emoção de vez em quando, de forma equilibrada, faz parte da vida e está tudo bem. O sinal de alerta acende quando esse comer vira o único recurso para lidar com tudo, quando a frequência e o volume saem do lugar e o controle escapa, porque aí o prazer deixa de ser escolha e vira a única saída.
E aqui está a chave que muda tudo: na maior parte das vezes, o que faz esse impacto sair do lugar, a frequência subir e o controle escapar, não é falta de força de vontade, é a via fisiológica desregulada por baixo de tudo. Por isso, para que o comer volte ao equilíbrio, é ela que precisamos olhar primeiro.
Fatores que precisam ser olhados em relação a fome
É aqui que mora o que mais muda a vida das minhas pacientes quando elas entendem. Muitas vezes, aquilo que a pessoa chama de exagero, a sensação de estar comendo o dia inteiro e sem controle, não é falta de força de vontade ou algum transtorno alimentar, mas pode ser simplesmente o corpo internamente desregulado.
Uma única noite mal dormida já basta para a fome sair do eixo no dia seguinte.
O estresse crônico faz exatamente a mesma coisa, porque um corpo em estado de alerta constante pede energia o tempo todo.
A falta de rotina alimentar, como comer cada dia em um horário ou ficar beliscando o dia todo, também pode contribuir para a desregulação da fome.
A qualidade do que você come também pesa muito, já que uma alimentação com mais fibra e mais proteína prolonga a saciedade de verdade, enquanto refeições pobres nisso deixam você com fome de novo pouco tempo depois.
É por isso que regular essa via fisiológica é tão decisivo, e a boa notícia é que existem caminhos concretos para isso. E repare que isso não tem nada a ver com passar fome ou se privar, é exatamente o contrário, é devolver ao corpo um ritmo no qual a fome real volta a aparecer com clareza, para que você consiga enfim escutá-la.
E acontece uma coisa interessante quando essa via fisiológica volta a funcionar, porque a via hedônica para de precisar gritar tão alto. Com a fome do corpo organizada, o impulso de comer por emoção perde força sozinho, e aí sobra espaço para cuidar do prazer com mais leveza. Mesmo assim, desse lado também existem estratégias, e a nutrição comportamental trabalha exatamente isso, não para eliminar o prazer, mas para colocá-lo no lugar certo, longe do exagero constante e longe da proibição, em um equilíbrio no qual comer algo gostoso continua fazendo parte da vida sem precisar ser a válvula de escape para tudo.
Por que não dá para cuidar da comida ignorando o comportamento
Repare que nada disso se separa da alimentação, muito pelo contrário, é a base dela. O comportamento é o motor que faz você tomar cada decisão sobre o que colocar no prato, e por isso cuidar da dieta sem olhar para ele é consertar apenas metade do problema, quase sempre a metade mais fácil, enquanto a outra, a que realmente trava, continua intacta.
Eu costumo dizer que o comer não existe separado da vida, ele carrega a sua rotina, o seu sono, o seu estresse, as suas relações e a sua história inteira, e é por isso que, para mim, cuidar da alimentação começa por entender por que você come, e não por entregar mais um cardápio para você seguir sozinha.
Comportamento alimentar, na minha prática clínica

Quando uma paciente me procura dizendo que sente fome o tempo todo, ou que come sem conseguir se controlar, eu não respondo com a frase mais fácil do mundo, que seria "então coma menos", porque essa frase nunca resolveu nada e só empilha mais culpa. Em vez disso, eu investigo. Olho a rotina, o sono e o nível de estresse, e associo tudo isso à alimentação, entendendo como está o aporte de fibra e de proteína, como estão os horários, onde o corpo está sendo hiperestimulado e onde a emoção está entrando na conta. É juntando todas essas peças que eu descubro o que de fato está por trás daquela fome, porque a fome, quase sempre, é um sintoma, e não a causa.
E o que eu mais gosto nesse trabalho é que o resultado costuma vir rápido. Em poucas semanas, quando a pessoa passa a olhar para o lugar certo, a fome começa a se regular quase sozinha, e aquilo que parecia falta de controle se revela, na grande maioria das vezes, um corpo que só precisava ser compreendido em vez de combatido. Há dez anos é isso que eu vejo acontecer, de forma profunda e real.
Se você se reconhece nessa relação com a comida e quer entendê-la na raiz, em vez de brigar com ela todos os dias, agende a sua consulta comigo.
Atendimento online para o mundo todo, com consultas avulsas e Programa Integrado. Ambos realizados pela AREV Health, um ecossistema de saúde do qual sou cofundadora e junto com a Dra. Mariana Teixeira, mostramos que a mudança está na profundidade e na individualidade de cada um.



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