top of page

Comer sem fome: por que isso é tão comum?

Foto do escritor: Verônica Gouvêa
Verônica Gouvêa
28 de set.
5 min de leitura

Atualizado: 23 de out.

por Nutricionista Verônica Gouvêa


Você acaba de almoçar, está satisfeita, e meia hora depois já está de volta na cozinha procurando alguma coisa para comer. Ou está trabalhando, nem percebe, e quando se dá conta já abriu o pacote de biscoito. Ou simplesmente passa na frente da geladeira e a abre, sem fome nenhuma, só por abrir. Se você se reconhece nisso, provavelmente já se culpou por causa disso, já se chamou de ansiosa, de sem força de vontade, de descontrolada.


mulher comendo mesmo sem sentir fome

E é por aqui que eu preciso começar, desfazendo uma ideia injusta: comer sem fome quase nunca é falta de força de vontade. E, ao contrário do que tanto se repete por aí, também não é só emoção. Existe a fome física, aquela que nasce no corpo quando ele realmente precisa de energia. Mas existe também todo um comer que não tem nada a ver com a necessidade do corpo, e esse comer tem várias origens diferentes. Reduzir tudo isso a "comer emocional" é perder a maior parte da história. Para entender por que você come mesmo sem fome, é preciso conhecer os motivos que se escondem por trás disso, porque cada pessoa vive a sua própria combinação deles.


O hábito de comer o tempo todo


O primeiro motivo, e um dos mais ignorados, é simplesmente o hábito. Tem gente que aprendeu a comer o tempo todo desde criança. Cresceu em uma casa onde se beliscava a tarde inteira, onde comida era sempre oferecida, onde estar com algo na boca era o normal. Para essa pessoa, comer não depende de sentir fome, depende do roteiro de sempre.


Ela não está respondendo a um sinal do corpo nem a uma emoção, está apenas repetindo um comportamento que faz parte dela há tanto tempo que virou automático. Não é vontade, é memória de rotina. E justamente por ser tão automático, é o tipo de comer que a pessoa menos percebe que está fazendo, porque para ela aquilo nunca foi uma escolha consciente, sempre foi o jeito como as coisas são.


O comer no automático, por distração


O segundo é o comer por distração, no piloto automático. É a pessoa que está trabalhando, se levanta, pega um café e alguma coisa para comer junto, volta para a mesa e come sem nem registrar direito o que comeu.


Aqui a comida cumpre um papel que não é nutrir. Ela quebra o tédio de uma tarefa, dá uma pausa, ocupa as mãos e a cabeça por um instante. É um comer que acontece enquanto a atenção está inteira em outro lugar, e por isso ele escapa completamente do radar. Quando a pessoa percebe, o pacote já acabou, e ela mal sentiu o gosto do que comeu. Não foi fome, foi a comida entrando no lugar de uma pausa que ela não soube fazer de outro jeito.


A emoção, que não é só ansiedade


O terceiro é o comer emocional, e aqui vem uma correção importante, porque a maioria das pessoas acha que emoção é só ansiedade. Não é. A comida também aparece para preencher o tédio, a solidão, o cansaço e a frustração.


Em todos esses casos, ela funciona como um conforto rápido, porque comer ativa o circuito de recompensa do cérebro e traz um alívio imediato, ainda que passageiro. É a chamada fome hedônica, ou seja, o comer movido pela busca de prazer e de alívio, e não pela necessidade de energia. Por isso, quando alguém diz que come por emoção, raramente é apenas o nervosismo de um dia difícil. Muitas vezes é um vazio mais silencioso, como uma noite sozinha ou uma tarde sem graça, que a comida vem tentar preencher por alguns minutos.


O comer social


E existe ainda o comer social, que talvez seja o mais invisível de todos, porque parece o mais natural. Você come porque todo mundo está comendo, porque recusar o pedaço de bolo no aniversário parece falta de educação, porque o cafezinho com o docinho virou o programa da tarde no trabalho.


E aqui eu preciso ser clara, para não cair no exagero oposto: nem todo comer sem fome é um problema. Comer por prazer, comer em um encontro, comer para celebrar uma data, tudo isso faz parte de uma relação saudável e humana com a comida, e viver fugindo disso também adoece. O ponto de atenção não é o comer social em si, mas sim quando o comer sem fome deixa de ser uma escolha e vira automático, constante, e começa a fugir do seu controle.


beslicar o dia todo

Comer sem fome é complexo


Quando você junta tudo isso, percebe que "comer sem fome" não é um comportamento único, é um guarda-chuva que cobre coisas bem diferentes, ou seja, o hábito antigo, a distração, a emoção em várias formas e o convívio. Cada pessoa vive a sua própria mistura desses fatores, e quase sempre é mais de um ao mesmo tempo.


É exatamente por isso que não existe uma dica mágica que resolva, do tipo "beba um copo de água quando der vontade de comer". Sem entender qual é o motivo por trás do seu comer sem fome, qualquer tentativa de controlá-lo vira um tiro no escuro, e costuma terminar em mais culpa. O caminho não é lutar contra o comportamento, é primeiro entendê-lo.



Como eu olho para o comer sem fome na minha prática clínica


Quando uma paciente chega com essa queixa, eu trabalho por eliminação, como quem vai tirando camadas até encontrar o que está por baixo. A primeira coisa que eu faço é garantir que não é fome física de verdade, porque às vezes o corpo está realmente pedindo comida, e nesse caso a resposta é comer, não resistir. Honrar a fome real também é parte do cuidado.


Com a fome física descartada, eu olho para o hábito, depois para a distração, depois para o lado emocional e o social, e vou eliminando os fatores um a um para entender o que de fato sobra em cada episódio. A partir daí, construo com a paciente um mapeamento, porque cada caso é um caso. Às vezes a saída é trocar o beliscar automático por outro gesto, como um chá, uma pausa de verdade, um hobby que ocupe as mãos. Às vezes é criar um novo hábito no lugar do antigo. Às vezes é aprender a reconhecer a emoção antes de ela virar comida. Não existe fórmula pronta nem regra única, existe investigar, entender e remapear, aos poucos, o jeito como aquela pessoa come.


Há dez anos eu vejo que é assim que a relação com a comida muda de verdade, não com mais proibição e mais culpa, mas com autoconhecimento. Quando a pessoa finalmente entende por que come sem fome, ela para de lutar contra si mesma e começa, enfim, a ter escolha.


Se você sente que come no automático e já tentou de tudo para controlar isso sozinha, talvez seja hora de olhar para o que está por trás com mais profundidade. É isso que eu faço, e é para isso que eu te convido.



Atendimento online para o mundo todo, com consultas avulsas e Programa Integrado. Ambos realizados pela AREV Health, um ecossistema de saúde do qual sou cofundadora e junto com a Dra. Mariana Teixeira, mostramos que a mudança está na profundidade e na individualidade de cada um.


 
 
 

Comentários


bottom of page