Por que comer bem nem sempre é o suficiente para mudar o corpo

Atualizado: 23 de out.
por Nutricionista Verônica Gouvêa
Tem uma cena que se repete quase toda semana no meu consultório. A paciente chega decidida, motivada, e me diz algo como: "Nutri, eu quero ganhar massa, acho que preciso comer mais proteína" ou "quero mudar meu corpo, me ajuda a acertar a alimentação". Ela chega porque sabe que precisa de ajuda e isso já é meio caminho andado. Mas ela chega convicta de uma coisa: de que a solução e a resposta de tudo estão apenas na alimentação.

E é justamente aí que começa o meu trabalho. Porque nem sempre a mudança do corpo está apenas na alimentação. É o que eu vou te explicar aqui nesse post, para você entender a diferença de quem vive buscando resultado e nunca consegue, para quem realmente vê a mudança acontecer.
O problema quase nunca está onde você está olhando
Quando uma paciente chega focada só em caloria e proteína para ter os resultados que tanto deseja, eu logo identifico e mostro a ela fatores que normalmente estão totalmente relacionados ao corpo, à saúde e ao metabolismo. Eu começo a investigar o que está embaixo e, quase sempre, o que trava o corpo está num lugar que ninguém tinha olhado ainda.
Investigo a rotina completa, porque o corpo funciona em ritmo, chamado ciclo circadiano, que nada mais é do que um relógio biológico que organiza sono, hormônios e metabolismo ao longo do dia, e que precisa estar regulado pra trabalhar a seu favor. Então, quando você dorme mal ou dorme cada dia em um horário, por exemplo, esse relógio desregula, e o efeito é direto sobre a fome, estresse e metabolismo.
Na prática, basta uma noite ruim de sono para o corpo aumentar a produção de grelina, o hormônio que dispara o apetite, e reduzir a leptina, o hormônio que sinaliza saciedade. Ou, basta você ficar pulando refeições para sua fome desregular e seu estresse aumentar: ambos têm um impacto negativo no seu corpo.
Outro padrão que é muito comum é a pessoa ter uma semana impecável, mas chegar no fim de semana e descompensar tudo. Esse comportamento na ciência é chamado de jetlag social. Uma desregulação semanal que seu corpo vive e impacta em todo o sistema que envolve o peso. Sem contar no estresse e ansiedade gerados pelo sentimento de culpa. E esse ciclo se repete toda semana: na segunda ainda está recuperando e se culpando pelo fim de semana, na quarta-feira entra no ritmo e na sexta tudo sai do controle novamente. É um sistema inteiro desorganizado, e a comida é só uma peça dele.

Obviamente tudo isso respinga no corpo. Sono ruim, fome desregulada, estresse crônico, um ciclo circadiano bagunçado, o corpo sente cada um desses fatores. Você pode acertar as calorias com precisão, mas se a base está desorganizada, o corpo não tem como responder.
Cuidar do corpo é como construir uma casa
Eu costumo explicar assim para as minhas pacientes: cuidar do corpo é como construir uma casa.
A rotina, o sono, a fome e a saciedade reguladas, a relação com a comida, a forma como você lida com o estresse, isso é a fundação e as paredes. É o que sustenta tudo. As calorias e a proteína ajustadas com precisão são o quadro que se pendura na parede depois que ela existe. Às vezes, honestamente, são a cereja do bolo. E não há como pendurar um quadro em uma parede que ainda não foi levantada.
É o mesmo raciocínio que vale para aquele chá que promete resolver a ansiedade. Um chá de camomila não resolve uma ansiedade que nasce do trabalho em que você não consegue colocar limite, da rotina que te sufoca, de uma vida sem pausas e de uma relação de estresse com a comida. O chá tem seu lugar, e muito importante, mas esse exemplo te mostra que não é a solução, mas sim uma estratégia para complementar e potencializar uma estrutura que já está de pé. Primeiro a casa, com parede e telhado para a chuva não entrar; só então o acabamento.
Tudo isso que estou te contando explica porque tanta gente nunca consegue ver resultado. A maioria delas está olhando para o acabamento, quando na verdade, precisa olhar para a estrutura. E obviamente, quando a base está sendo bem fundada, a alimentação tem uma força imensa, com resultados incríveis e muito mais fáceis de serem vistos.
Não é só quanto você come. É o que você come.
Tem como ir mais fundo ainda nessa conversa. Com a base organizada, ainda existe uma camada que muda tudo e que simplesmente quem foca apenas em calorias ignora por completo: a qualidade do que entra no prato.
Quando a gente olha só para o "número" que o alimento tem, esquece o que aquela caloria de fato é. Cem calorias de um biscoito recheado não produzem no corpo o mesmo efeito de cem calorias de um abacate, e isso não é opinião, é o que a ciência mostra. O abacate carrega fibra, gordura boa e compostos bioativos que protegem o organismo. O biscoito carrega praticamente o oposto. No papel, a mesma caloria; no corpo, efeitos completamente diferentes sobre a fome, a energia, a glicemia e o intestino. A comida de verdade traz esses compostos protetores. O ultraprocessado, mesmo quando parece inofensivo, com frequência trabalha contra você.
Logo, além de toda conversa sobre rotina, ciclo circadiano e ajuste do estresse, também precisamos falar do papel da nutrição funcional no emagrecimento, ganho de massa e na saúde. Então enquanto você se importa apenas com o quanto se come, você ignora o que se come e como isso impacta positivamente no seu corpo.
Um caso que mostra isso na prática
Teve uma paciente, há pouco tempo, que ilustra isso melhor do que qualquer explicação minha.

Ela já estava usando Tirzepatida (caneta emagrecedora) e, depois de perder bastante peso, o corpo não respondia mais, mesmo com o uso do medicamento. Ela já estava em déficit calórico e com ajuste de proteína adequado, porém ainda precisávamos ajustar melhor a qualidade alimentar. Não diminuí a quantidade de comida (pois já estava baixa e isso poderia impactar na ferritina, no ganho de massa e na disposição dela), mas sim mudei a qualidade dos alimentos. Mais frutas vermelhas, mais alimentos com aqueles compostos bioativos, que são protetores e extremamente benéficos ao organismo, mais comida de verdade. Em uma semana, ela perdeu um quilo e meio. O corpo dela, que estava travado, voltou a responder, não porque cortamos mais calorias, mas porque demos ao corpo dela o que ele realmente precisava: estímulo!
Foi um exemplo muito claro de uma coisa que eu repito sempre: o corpo não é teimoso. Ele responde. Ele só precisa das condições certas.
A dificuldade de mudar o corpo na minha prática clínica
Se você sente que já fez de tudo e mesmo assim seu corpo não muda, é provável que a resposta não esteja em cortar mais calorias ou somar mais 1g de proteína. A estratégia costuma estar na base, na rotina, no sono, na regulação da fome, no estresse, na relação com a comida, que precisa ser organizada.
É esse o trabalho que eu faço há 10 anos e vejo minhas pacientes mudarem e sustentarem essa mudança, porque ela é profunda e real. Em vez de entregar mais uma dieta para você seguir sozinha e se frustrar de novo, a gente investiga junto o que está travando o seu corpo e constrói na ordem certa: da fundação ao telhado, e só então o quadro na parede.
Esse é o olhar que orienta o cuidado que eu ofereço. Se você está cansada de fazer a sua parte e não ver resultado, e quer entender de verdade o que está por trás disso, agende sua consulta.
Atendimento online para o mundo todo, com consultas avulsas e Programa Integrado. Ambos realizados pela AREV Health, um ecossitema de saúde do qual sou cofundadora e junto com a Dra. Mariana Teixeira, mostramos que a mudança está na profundidade e na individualidade de cada um.

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